"But the attitude of faith is to let go, and become open to truth, whatever it might turn out to be." Allan Watts / "Finish your goddamn plate" Joshua Fields Milburn
sábado, dezembro 31, 2005
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Compras
Eu até percebo que algumas pessoas vão às compras para relaxar. Que a libertação do consumismo sirva para aliviar outras pulsões menos próprias ou concretizáveis. Que o facto de se estar a adquirir algo que valorize a própria imagem imagem seja algo benéfico e mesmo saudável....
O que eu não entendo, francamente, é como é que alguém consegue estar horas a fio num centro comercial ou em lojas apinhadas de gente sem ficar com uma neura descomunal...
Como aquela com que eu estou hoje.
O que eu não entendo, francamente, é como é que alguém consegue estar horas a fio num centro comercial ou em lojas apinhadas de gente sem ficar com uma neura descomunal...
Como aquela com que eu estou hoje.
domingo, dezembro 25, 2005
Esquecimento
por José Carlos Ary dos Santos
Quando eu morrer,
Sem o cansaço inútil da jornada
- Porque nunca o senti -
Sem o manto sublime da amargura
- Porque nunca chorei -
Sem a réstia de fogo da alegria
- Porque nunca me ri -
Aqueles que me odiaram,
Os poucos que me acolheram
E os muitos que nunca vi,
Hão-de chorar por convenção
Ou sorrir por teimosia.
Mas nunca ninguém se lembrará
Do pobre que nunca riu
Nem chorou
Nem sentiu.
Este poema, é-me muito querido (mas isso não é lá muito invulgar no Ary) porque de uma maneira simples e ilustrativa nos lembra que viver é sentir.
Acho que todos conhecemos pessoas que vivem resguardando-se das emoções, porque têm medo de se magoar, por que se querem preservar, ou porque simplesmente acham que não devem dar mais de si. O poeta fala no "cansaço inútil", na amagura sublime e na alegria sempre com o mesmo tom.
Não importa se é inútil, não importa se é amargo, não importa se é uma réstia: é sentir.
E só perduramos e permanecemos nas memórias e corações das pessoas com quem nos cansamos, choramos, rimos... Sentimos!
(Dedicado a ti, que tens "medo" dos poemas)
sábado, dezembro 24, 2005
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Pensamento Lateral - desafios
1. Como atirar uma bola com toda a força e fazê-la voltar ao ponto inicial sem a amarrar com nenhum tipo de corda, nem precisar da ajuda de outra pessoa, nem sair do lugar?
2. O trem A e o trem B estão cruzando o país, de costa a costa; são mais de 4,828 Km. de vias de trens. O trem A vai de leste a oeste a 128.7 Km. por hora, e o trem B vai de oeste a leste a 144.8 Km. por hora. Qual dos trens estará mais perto da costa ocidental quando se cruzarem? (Pauta: Não é necessário fazer operações matemáticas para chegar até a resposta. Apenas para pensar!).
3. João estava de um lado do rio e seu cachorro, Dofi, estava do outro lado. "Vem, Dofi, vem!" Gritava João. Dofi cruzou o rio e correu até João, que lhe deu um premio por ser um cachorro obediente. O surpreendente é que Dofi nem se quer se molhou! Como o fez?
4. Quanta terra tem em um buraco redondo que tem 3 metros de profundidade e um metro de diâmetro? (Pauta: Não é necessário fazer operações matemáticas para chegar a resposta. Apenas para pensar!).
2. O trem A e o trem B estão cruzando o país, de costa a costa; são mais de 4,828 Km. de vias de trens. O trem A vai de leste a oeste a 128.7 Km. por hora, e o trem B vai de oeste a leste a 144.8 Km. por hora. Qual dos trens estará mais perto da costa ocidental quando se cruzarem? (Pauta: Não é necessário fazer operações matemáticas para chegar até a resposta. Apenas para pensar!).
3. João estava de um lado do rio e seu cachorro, Dofi, estava do outro lado. "Vem, Dofi, vem!" Gritava João. Dofi cruzou o rio e correu até João, que lhe deu um premio por ser um cachorro obediente. O surpreendente é que Dofi nem se quer se molhou! Como o fez?
4. Quanta terra tem em um buraco redondo que tem 3 metros de profundidade e um metro de diâmetro? (Pauta: Não é necessário fazer operações matemáticas para chegar a resposta. Apenas para pensar!).
terça-feira, dezembro 20, 2005
Vale a pena pensar nisto...
"A maior parte dos habitantes deste planeta não festeja o Natal. Aliás, o Natal é uma tradição antiga, oriunda do xamanismo siberiano. As cores tradicionais associadas ao Natal, o vermelho e o branco, têm origem nas de um cogumelo alucinogéneo. Quanto ao Pai Natal, vem do Cáucaso, o azevinho dos Celtas, o tronco de natal dos Góticos e o abeto do culto a Baal. Viva a globalização!"


(escrito por um tal de Kirby, fucionário do Wal-Mart em resposta a um boicote da Liga Católica pela substituição dos cartazes de "Feliz Natal" por "Boas Festas". E foi um senhor desta cultura e sentido de humor todo despedido por um emailzinho de nada...)
Visto no Courrier Internacional nº35, de 2 a 8 de Dezembro de 2005
É Natal...
Por isso, cá vai mais um pedido de ajuda...
A associação "Abraço" recebeu 30 meninos com HIV.
Estamos a necessitar de roupa para rapariga (qualquer idade) e para rapaz precisamos dos 6 aos 14 anos para este projecto (trinta crianças a cargo).
Se quiserem colaborar contactem se faz favor para:
Maria José Magalhães Telef.: 21799750 (Associação "Abraço") 223756655 VILA NOVA DE GAIA 800225115 LINHA AZUL
Se não puderem ajudar pelo menos passem a mensagem para os vossos contactos, por favor, não custa nada e pode estar a fazer a diferença. Obrigado!!!
É Natal...
A associação "Abraço" recebeu 30 meninos com HIV.
Estamos a necessitar de roupa para rapariga (qualquer idade) e para rapaz precisamos dos 6 aos 14 anos para este projecto (trinta crianças a cargo).
Se quiserem colaborar contactem se faz favor para:
Maria José Magalhães Telef.: 21799750 (Associação "Abraço") 223756655 VILA NOVA DE GAIA 800225115 LINHA AZUL
Se não puderem ajudar pelo menos passem a mensagem para os vossos contactos, por favor, não custa nada e pode estar a fazer a diferença. Obrigado!!!
É Natal...
Ajuda de Berço
Clica em "um colo para cada criança" depois de entrares neste site...
http://www.jazzcidadania.org
Às vezes não custa mesmo nada fazer uma boa acção :)
A Ajuda de Berço é uma instituição que acolhe e encaminha crianças entre os 0 e os 3 anos de idade que não podem viver com os pais ou familiares.
Nasceu na sequência das necessidades sentidas por um grupo de profissionais - médicos pediatras, sociólogos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de serviço social e juristas - para dar resposta ao problema das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.
A Ajuda de Berço promove, defende e dignifica a vida humana, através do apoio a mulheres grávidas sem condições e aos filhos delas nascidos.
http://www.jazzcidadania.org
Às vezes não custa mesmo nada fazer uma boa acção :)
O que é a Ajuda de Berço
A Ajuda de Berço é uma instituição que acolhe e encaminha crianças entre os 0 e os 3 anos de idade que não podem viver com os pais ou familiares.
Nasceu na sequência das necessidades sentidas por um grupo de profissionais - médicos pediatras, sociólogos, enfermeiros, psicólogos, técnicos de serviço social e juristas - para dar resposta ao problema das crianças em risco, situação de abandono e vítimas de exclusão social.
A Ajuda de Berço promove, defende e dignifica a vida humana, através do apoio a mulheres grávidas sem condições e aos filhos delas nascidos.
sábado, dezembro 17, 2005
terça-feira, dezembro 13, 2005
Sabiam que...
"Há uma lei que impõe que seja dado a cada habitante [do Alaska] um cheque anual de dois mil dólares, retirados dos lucros do petróleo." (Courrier Internacional nº32, pg 45)
Porque é que nós não temos jazidas de petróleo, mesmo?...
Porque é que nós não temos jazidas de petróleo, mesmo?...
sábado, dezembro 10, 2005
Desafio
Este quadro de Dali não é especialmente conhecido.
Está nas cores e posição original (podem ver a assinatura em baixo).

O meu desafio é que me digam os sentimentos que ele vos transmite... E prometo que daqui a uma semaninha (mais coisa menos coisa) vos surpreendo. Want to give it a try? Garanto que se já gostavam de Dali, agora é que vão achar que o homem era mesmo um génio :)
(actividade "fanada" ao Sérgio Araújo, do curso de Técnicas de Negociação Pessoal, que a propósito, recomendo vivamente :))
Está nas cores e posição original (podem ver a assinatura em baixo).

O meu desafio é que me digam os sentimentos que ele vos transmite... E prometo que daqui a uma semaninha (mais coisa menos coisa) vos surpreendo. Want to give it a try? Garanto que se já gostavam de Dali, agora é que vão achar que o homem era mesmo um génio :)
(actividade "fanada" ao Sérgio Araújo, do curso de Técnicas de Negociação Pessoal, que a propósito, recomendo vivamente :))
quarta-feira, dezembro 07, 2005
Vitórias
O mesmo José Pacheco explicava a uma audiência pequena que para fazer vingar um qualquer projecto é preciso uma estratégia.
"Quando lutamos contra o sistema, ficamos sempre a perder (...) Temos de usar as armas do sistema, contra o sistema, é a única forma de ir contra ele: não há cá vitórias morais nem derrotas imorais (...)"
Mas parece que desta vez houve uma excepção...
A Vitória deste meu colega (permitam-me dizê-lo com reconhecida parcialidade, até porque a vitória também me foi dedicada - e é claro que admito que é capaz de ser das coisas mais fixes que já fizeram por mim) não foi apenas uma vitória factual, mas foi certamente uma vitória moral contra "bizantinices" que de forma pouco democrática produziram no ano anterior uma derrota imoral...
Parabéns Pedro!
"Quando lutamos contra o sistema, ficamos sempre a perder (...) Temos de usar as armas do sistema, contra o sistema, é a única forma de ir contra ele: não há cá vitórias morais nem derrotas imorais (...)"
Mas parece que desta vez houve uma excepção...
A Vitória deste meu colega (permitam-me dizê-lo com reconhecida parcialidade, até porque a vitória também me foi dedicada - e é claro que admito que é capaz de ser das coisas mais fixes que já fizeram por mim) não foi apenas uma vitória factual, mas foi certamente uma vitória moral contra "bizantinices" que de forma pouco democrática produziram no ano anterior uma derrota imoral...
Parabéns Pedro!
domingo, dezembro 04, 2005
Tabus modernos: Hitler

É inacreditável a contemporânea histeria que persiste em torno da figura de Hitler. Dado sempre como o mau exemplo, como a antítese de tudo o que é bom, o Anticristo e mesmo como o próprio demo.
Sobre a sua figura todas as coisas positivas soam a sacrilégio; como se por alguém achar extraordinário que Hitler, um estudante de artes sem posses e austríaco, chegasse pela via democrática a Chanceler da Alemanha, isso o tornasse cumplice do assassinato dos milhares de judeus que pereceram no Holocausto.
O tabu é de tal ordem, e é aqui que eu quero chegar, que todos os livros de Dali por onde passeei na minha adolescencia se deram ao trabalho de omitir a enorme fascinação que este artista genial sentia pelo ditador.
"I saw Hitler as a masochist obsessed with the idee fixe of starting a war and losing it in heroic style. In a word, he was preparing for one of those actes gratuits which were then highly approved of by our group." (Dali)

(o quadro de cima chama-se "O Enigma de Hitler" e é de 1939, o quadro de baixo, "Hitler a masturbar-se" e é de 1973)
sábado, dezembro 03, 2005
A MORALIDADE DE ABORTAR: UM OUTRO NÍVEL DE DISCUSSÃO
Os argumentos necessitam por isso de ser aprofundados e
não reduzidos à caricatura da propaganda. Se vamos ter um
referendo, então preparemo-lo com mais seriedade.
A discussão tradicional sobre o aborto raramente sai de trincheiras muito rasteiras e, sobretudo, quase nunca aborda as questões éticas e morais que a decisão de interromper a gravidez coloca. Debate-se o "direito à vida" contra o "direito ao corpo", discute-se – por regra de forma pouco informada – a biologia do desenvolvimento do feto, fala-se de saúde pública, ou de terminar com o flagelo do abordo clandestino, ou remete-se o problema para o nível exclusivo da consciência individual. Nalguns casos os dois campos barricam-se em "direitos absolutos" que até interditariam a possibilidade de os cidadãos se pronunciarem em referendo. Uma das fragilidades da nossa discussão é que nunca leva qualquer argumento até às últimas consequências. Isto é, não se enfrentam todos os corolários das afirmações produzidas. Ora se podemos aceitar isso num debate político – a política é a arte do possível e as leis devem estar em sintonia com o consenso social, permitindo contudo que pelo debate plural se altere ao longo do tempo esse consenso –, numa discussão filosófica sobre ética é importante saber até onde nos levam as premissas que autorizam esta ou aquela legislação específica. Ora é exactamente essa a principal virtude do livro A Ética do Aborto – Perspectivas e Argumentos, organizado por Pedro Galvão, professor na Universidade de Lisboa, e editado com o apoio da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Nesta obra reúnem-se seis dos textos mais marcantes do debate sobre a moralidade do aborto que, nos últimos 35 anos, foram publicados nas mais importantes revistas científicas dos Estados Unidos. Três defendem o aborto, três condenam-no, sendo que todos colocam o debate num nível elevado e sofisticado. Lê-los mostra-nos como alguns dos argumentos mais comuns, se desenvolvidos até ao fim, levam a conclusões pelo menos perturbantes. O primeiro ensaio é, porventura, o mais conhecido de todos. É a defesa do aborto feita em 1970 por Judith Jarvis Thomson e quase todos os outros textos de alguma forma se lhe referem. Este texto parte de um princípio – é impossível estabelecer uma linha divisória clara no processo de desenvolvimento do feto e do recém-nascido que separe a vida da não-vida ou, se preferirmos, a vida humana da não-vida humana – e desenvolve o seu argumento em torno do conflito entre dois direitos: o direito à vida da mãe e o direito à vida do feto. A autora procura, através do estabelecimento de paralelismos, mostrar-nos que existem circunstâncias em que não se pode exigir à mãe que sustente a vida do feto pois isso representaria uma restrição do seu direito à vida que não lhe pode ser moralmente imposta. Os exemplos desenvolvidos levar-nos-iam a aceitar sem problemas a interrupção da gravidez em casos especiais que não andarão muito longe dos já previstos na lei portuguesa, com a diferença do julgamento pertencer apenas à mulher. Michael Tooley vai mais longe. Reconhecendo também que a biologia não permite dividir com clareza a vida da não-vida, procura encontrar um critério para definir o momento em que um ser vivo pode ser considerado um ser humano. Não segue por isso as linhas divisórias habituais – o momento da concepção; o momento em que o zigoto não pode dividir-se ou fundir-se com outro; a existência de ondas cerebrais; a viabilidade de sobrevivência fora do útero e ainda o momento do nascimento – e estabelece um novo patamar: o momento em que o indivíduo se torna consciente de si e racional. Esta definição de condição humana tem um corolário, que o autor aceita e defende: a consciência de si só se forma depois do nascimento, pelo que se o aborto é moral, o infanticídio também é moral. Já o argumento utilitarista, popularizado por Peter Singer, não é objecto de nenhum texto específico apesar do seu argumento se aproximar de algumas sensibilidades presentes no debate português. A sua preocupação é a maximização do bem-estar dos envolvidos, isto é, da mulher grávida e do feto. Ora como até uma determinada fase do seu desenvolvimento o feto não é um ser com sensibilidade à dor, até esse momento não podemos falar do seu bem-estar mas apenas do da mulher grávida. Esta pode então decidir abortar livremente se ter o filho prejudicar, por exemplo, a sua carreira profissional ou diminuir o seu nível de vida. Os três textos onde se defende que o aborto é imoral a não ser em circunstâncias extremas seguem, no essencial, duas linhas de raciocínio. Por um lado, exploram as consequências dos argumentos anteriores mostrando como elas acabam, no limite, por violentar o senso comum. E se isso é claro no argumento que aceita o infanticídio, o desenvolvimento do argumento utilitarista – a maximização do bem-estar – também serviria para legitimar a eliminação dos bebés deficientes (que nunca terão bem-estar e provocarão muito mal-estar) ou dos avós doentes (pela mesma ordem de ideias). Por outro lado, Stephen Schwarz, Harry Gensler e Donald Marquis desenvolvem linhas de argumentação que, utilizando paralelismos lógicos, procuram mostrar que, se a ciência médica não é capaz de dizer quando é que a vida passa a ser vida humana, devemos então partir da nossa percepção, como seres humanos, do que é aceitável ou inaceitável – moral ou imoral – que nos façam a nós próprios e considerar que a criança antes de nascer tem esses mesmos direitos. Se não aceitamos que nos matem sem dor, que nos matem porque temos uma deficiência ou que nos matem porque constituímos uma carga para outros, então porque havemos de aceitar que se interrompa o desenvolvimento do feto com base em argumentos semelhantes? Esta é a linha de raciocínio kantiana, neste livro melhor desenvolvida por Gensler. Os dois últimos textos, de Donald Marquis e David Boonin, procuram fugir às linhas tradicionais de argumentação centrando-se no significado de acto de matar. Para Marquis, matar priva a vítima de um futuro com valor, e isso é inaceitável moralmente – logo é inaceitável moralmente interromper uma gravidez já que tal privará o ser em desenvolvimento do futuro a que tem direito. A dificuldade deste argumento, que o autor procura resolver no final do seu ensaio, é que este pode ser extensível aos métodos contraceptivos, pois estes também interrompem um "futuro". Contudo aí a distinção biológica é possível, já que os gâmetas separados – espermatozóides ou óvulos – só têm futuro se formarem um embrião viável, e não antes disso. Boonin aceita o princípio do mal de matar, mas admite o aborto porque defende que um feto é diferente de um recém-nascido pois não é possível equiparar ambos na possibilidade de acederem a um futuro valioso. Apesar de constituir apenas uma pequena introdução à abundante bibliografia sobre as implicações éticas do aborto, estes seis ensaios, dos mais citados no debate americano, têm a virtude de mostrar que, mesmo aceitando que o aborto é uma "questão de consciência", qualquer que seja a nossa posição ela tem consequências morais e éticas que não podem deixar de ser consideradas numa sociedade civilizada. Os argumentos necessitam por isso de ser aprofundados e não reduzidos à caricatura da propaganda. Se vamos ter um referendo, então preparemo-lo com mais seriedade. Este livro é uma boa ajuda, até porque obriga a repensar, para sermos intelectualmente honestos connosco mesmo, argumentos gastos e regastos no nosso debate doméstico. JOSÉ MANUEL FERNANDES, in jornal "O Público"
não reduzidos à caricatura da propaganda. Se vamos ter um
referendo, então preparemo-lo com mais seriedade.
A discussão tradicional sobre o aborto raramente sai de trincheiras muito rasteiras e, sobretudo, quase nunca aborda as questões éticas e morais que a decisão de interromper a gravidez coloca. Debate-se o "direito à vida" contra o "direito ao corpo", discute-se – por regra de forma pouco informada – a biologia do desenvolvimento do feto, fala-se de saúde pública, ou de terminar com o flagelo do abordo clandestino, ou remete-se o problema para o nível exclusivo da consciência individual. Nalguns casos os dois campos barricam-se em "direitos absolutos" que até interditariam a possibilidade de os cidadãos se pronunciarem em referendo. Uma das fragilidades da nossa discussão é que nunca leva qualquer argumento até às últimas consequências. Isto é, não se enfrentam todos os corolários das afirmações produzidas. Ora se podemos aceitar isso num debate político – a política é a arte do possível e as leis devem estar em sintonia com o consenso social, permitindo contudo que pelo debate plural se altere ao longo do tempo esse consenso –, numa discussão filosófica sobre ética é importante saber até onde nos levam as premissas que autorizam esta ou aquela legislação específica. Ora é exactamente essa a principal virtude do livro A Ética do Aborto – Perspectivas e Argumentos, organizado por Pedro Galvão, professor na Universidade de Lisboa, e editado com o apoio da Sociedade Portuguesa de Filosofia.
Nesta obra reúnem-se seis dos textos mais marcantes do debate sobre a moralidade do aborto que, nos últimos 35 anos, foram publicados nas mais importantes revistas científicas dos Estados Unidos. Três defendem o aborto, três condenam-no, sendo que todos colocam o debate num nível elevado e sofisticado. Lê-los mostra-nos como alguns dos argumentos mais comuns, se desenvolvidos até ao fim, levam a conclusões pelo menos perturbantes. O primeiro ensaio é, porventura, o mais conhecido de todos. É a defesa do aborto feita em 1970 por Judith Jarvis Thomson e quase todos os outros textos de alguma forma se lhe referem. Este texto parte de um princípio – é impossível estabelecer uma linha divisória clara no processo de desenvolvimento do feto e do recém-nascido que separe a vida da não-vida ou, se preferirmos, a vida humana da não-vida humana – e desenvolve o seu argumento em torno do conflito entre dois direitos: o direito à vida da mãe e o direito à vida do feto. A autora procura, através do estabelecimento de paralelismos, mostrar-nos que existem circunstâncias em que não se pode exigir à mãe que sustente a vida do feto pois isso representaria uma restrição do seu direito à vida que não lhe pode ser moralmente imposta. Os exemplos desenvolvidos levar-nos-iam a aceitar sem problemas a interrupção da gravidez em casos especiais que não andarão muito longe dos já previstos na lei portuguesa, com a diferença do julgamento pertencer apenas à mulher. Michael Tooley vai mais longe. Reconhecendo também que a biologia não permite dividir com clareza a vida da não-vida, procura encontrar um critério para definir o momento em que um ser vivo pode ser considerado um ser humano. Não segue por isso as linhas divisórias habituais – o momento da concepção; o momento em que o zigoto não pode dividir-se ou fundir-se com outro; a existência de ondas cerebrais; a viabilidade de sobrevivência fora do útero e ainda o momento do nascimento – e estabelece um novo patamar: o momento em que o indivíduo se torna consciente de si e racional. Esta definição de condição humana tem um corolário, que o autor aceita e defende: a consciência de si só se forma depois do nascimento, pelo que se o aborto é moral, o infanticídio também é moral. Já o argumento utilitarista, popularizado por Peter Singer, não é objecto de nenhum texto específico apesar do seu argumento se aproximar de algumas sensibilidades presentes no debate português. A sua preocupação é a maximização do bem-estar dos envolvidos, isto é, da mulher grávida e do feto. Ora como até uma determinada fase do seu desenvolvimento o feto não é um ser com sensibilidade à dor, até esse momento não podemos falar do seu bem-estar mas apenas do da mulher grávida. Esta pode então decidir abortar livremente se ter o filho prejudicar, por exemplo, a sua carreira profissional ou diminuir o seu nível de vida. Os três textos onde se defende que o aborto é imoral a não ser em circunstâncias extremas seguem, no essencial, duas linhas de raciocínio. Por um lado, exploram as consequências dos argumentos anteriores mostrando como elas acabam, no limite, por violentar o senso comum. E se isso é claro no argumento que aceita o infanticídio, o desenvolvimento do argumento utilitarista – a maximização do bem-estar – também serviria para legitimar a eliminação dos bebés deficientes (que nunca terão bem-estar e provocarão muito mal-estar) ou dos avós doentes (pela mesma ordem de ideias). Por outro lado, Stephen Schwarz, Harry Gensler e Donald Marquis desenvolvem linhas de argumentação que, utilizando paralelismos lógicos, procuram mostrar que, se a ciência médica não é capaz de dizer quando é que a vida passa a ser vida humana, devemos então partir da nossa percepção, como seres humanos, do que é aceitável ou inaceitável – moral ou imoral – que nos façam a nós próprios e considerar que a criança antes de nascer tem esses mesmos direitos. Se não aceitamos que nos matem sem dor, que nos matem porque temos uma deficiência ou que nos matem porque constituímos uma carga para outros, então porque havemos de aceitar que se interrompa o desenvolvimento do feto com base em argumentos semelhantes? Esta é a linha de raciocínio kantiana, neste livro melhor desenvolvida por Gensler. Os dois últimos textos, de Donald Marquis e David Boonin, procuram fugir às linhas tradicionais de argumentação centrando-se no significado de acto de matar. Para Marquis, matar priva a vítima de um futuro com valor, e isso é inaceitável moralmente – logo é inaceitável moralmente interromper uma gravidez já que tal privará o ser em desenvolvimento do futuro a que tem direito. A dificuldade deste argumento, que o autor procura resolver no final do seu ensaio, é que este pode ser extensível aos métodos contraceptivos, pois estes também interrompem um "futuro". Contudo aí a distinção biológica é possível, já que os gâmetas separados – espermatozóides ou óvulos – só têm futuro se formarem um embrião viável, e não antes disso. Boonin aceita o princípio do mal de matar, mas admite o aborto porque defende que um feto é diferente de um recém-nascido pois não é possível equiparar ambos na possibilidade de acederem a um futuro valioso. Apesar de constituir apenas uma pequena introdução à abundante bibliografia sobre as implicações éticas do aborto, estes seis ensaios, dos mais citados no debate americano, têm a virtude de mostrar que, mesmo aceitando que o aborto é uma "questão de consciência", qualquer que seja a nossa posição ela tem consequências morais e éticas que não podem deixar de ser consideradas numa sociedade civilizada. Os argumentos necessitam por isso de ser aprofundados e não reduzidos à caricatura da propaganda. Se vamos ter um referendo, então preparemo-lo com mais seriedade. Este livro é uma boa ajuda, até porque obriga a repensar, para sermos intelectualmente honestos connosco mesmo, argumentos gastos e regastos no nosso debate doméstico. JOSÉ MANUEL FERNANDES, in jornal "O Público"
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