"But the attitude of faith is to let go, and become open to truth, whatever it might turn out to be." Allan Watts / "Finish your goddamn plate" Joshua Fields Milburn
segunda-feira, maio 31, 2010
Estrelinha
Os teus olhos brilham, brilham,
Se sorris, ó estrelinha,
Tu não sabes, mas eu digo
Iluminas a casinha
Quando ris, ó estrelinha
Na bochecha uma covinha
Até a lua, estrelinha
Parece que adivinha
Que há festa, estrelinha
A festa é tua e é minha.
"Gabriela"
Ainda lá estava a Enfermeira, a acabar de fazer o penso. Estava zangada. "Já chega", "Acabou", dizia Gabriela, do alto do seu aninho e meio e da sua estrutura pequenina e magrinha. Estava já não só com dores, mas saturada e dorida de lhe mexerem no penso.
Começamos a cantar "atirei o pau ao gato" e acabamos com "au au", para a desafiar a corrigir-nos. Depois de tentarmos o "mé mé", o "mu mu" e o "gri gri", lá se enervou e disse com voz de pintaínho zangado "miaaaaaau!"
Batemos muitas palmas e ela quis repetir.
Fazia covinhas quando se ria depois de dizer "miau" e era absolutamente irresistível.
Depois, os enfermeiros perceberam que se passava alguma coisa com o penso dela e tiveram de voltar a mexer-lhe e mudar as coisas de sítio no seu corpo pequenino. Pediram para ficarmos e ajudarmos a distraí-la e, com este pensamento, proibi-me de desmaiar.
Estivemos mais 50 minutos a fazer palhaçadas enquanto a Gabriela, chorava e pedia à mãe para lhe valer dizendo "não!", "acabou" e "au au au". Quando acabou o tratamento fizemos uma grande festa, e um ar de idiotas totais, para a animar, mas ela estava tão cansada do sofrimento e do esforço que fizera que abraçou a mãe e começou a adormecer entre soluços.
Saí do quarto completamente desorganizada e o choro dela assombrou o resto do meu dia.
Quando vinha para Ovar, ocorreu-me a imagem ternurenta da Gabriela a abraçar a mãe como que entregando-se a ela e lembrei-me de uma outra menina que está doente no IPO e que não tem família.
Nesse momento tornou-se claro para mim que nunca mais voltarei a acreditar em Deus.
domingo, maio 30, 2010
sábado, maio 29, 2010
The Brain in Love
sexta-feira, maio 28, 2010
Short Story
quarta-feira, maio 26, 2010
Enlightened
Sometimes you get stuck in your little pot, and you can't leave.
But that doesn't mean that you can't make the most of the sunlight at your reach!
terça-feira, maio 25, 2010
Flash Mob Fairy Dust
May 5th was Mukhtar's 41st birthday. He is a bus driver in Copenhagen, Denmark. He had no idea this was going to be his best birthday ever.
Outra conversa
"Concordo plenamente" - retorqui - "das coisas que realmente lamento na minha vida, olhando para trás, é o ter perdido tempo com gente que não gostava de mim, que não me apreciava. Se pudesse voltar atrás, talvez fosse essa a única coisa que eu mudaria."
Acabou o gole que dava novamente, franziu a cara e disse-me:
"Não é bem só isso, sabes? Sim, claro, é importante que as pessoas te apreciem, que gostem de ti, mas a medida que envelheces começas a escolher sobretudo pessoas que trazem alguma coisa de novo à tua vida, pessoas que te acrescentam alguma coisa."
"Pessoas que te acrescentem alguma coisa". Fez tanto sentido!
Porque nós tornamo-nos nas pessoas com quem lidamos, quer queiramos, quer não. Adquirimos os seus hábitos, os seus gostos, os seus tiques, as suas manias, as suas piadas, os seus desbloqueadores de conversa, os seus info-facts e - mais cedo ou mais tarde, consciente ou inconscientemente - a sua visão do mundo.
Então que sentido faz lidarmos frequentemente com uma pessoa que nos diz pouco? Que lógica tem fazer fretes de shopping se aquela pessoa não tem nada a ver com quem nós somos, com quem queremos ser?
Não se trata de ser puramente calculista e de renegar as pessoas que à partida não preenchem "x" parâmetros. Mas trata-se de escolhermos melhor as pessoas a quem devotamos o pouco tempo livre que temos, pensando não apenas na obrigação moral de dar atenção à pessoa X, mas também no prazer enorme de passar tempo com a pessoa Y que nos enriquece e nos torna pessoas melhores.
Está certo que o Pedro chumbou bem os nossos copos nessa noite. Mas não foi só a vodka que bateu.
segunda-feira, maio 24, 2010
Frase de hoje do Dalai Lama no Facebook
domingo, maio 23, 2010
A forma mais genuína de gostar
"Queres café?"
"Se alguém que já tomou mais de três refeições comigo me perguntar se quero café é porque não gosta de mim. Não estou a falar de amor, nem de homens. Estou a falar de gostar. Eu acredito que a atenção é a forma mais genuína de gostar. Se alguém compra Nutella (faz bolo de chocolate, encharcada ou morangos com mascarpone..) porque eu vou lá a casa, gosta de mim. E será oportuno neste momento dizer que não existem frigorífico e armários tão perfeitos como os de um italiano. Se alguém - que pode - me vai buscar ao aeroporto num Fiat 500 mesmo que isso implique deixar o Spider na garagem, gosta de mim. Se alguém me for comprar pato à pequim antes de me visitar, gosta de mim. Se alguém me perguntar se quero café - vou dar o desconto - depois de tomar cinco refeições comigo - com excepção para o meu sempre-sogro que faz disso piada - é porque não gosta de mim. Eu acredito - mesmo - que a atenção é a forma mais genuína de gostar."Post (mais um!) raptado daqui
sábado, maio 22, 2010
Respostas Simples
Olhou muito sério para mim, como se a resposta fosse óbvia e eu apenas estivesse a fazer retórica.
"É muito simples" retorquiu, quase incrédulo por ter que dizer o que era evidente "não podes ter dois amos, não podes obedecer a dois senhores. Da assinatura de quem é que dependes? Então, é fácil, trabalha para aí. É mesmo muito simples."
E não é que é mesmo?
sexta-feira, maio 21, 2010
Quero navegar
Não vou procurar quem espero
Se o que eu quero é navegar
Pelo tamanho das ondas
Conto não voltar
Parto rumo à primavera
Que em meu fundo se escondeu
Esqueço tudo do que eu sou capaz
Hoje o mar sou eu
Esperam-me ondas que persistem
Nunca param de bater
Esperam-me homens que desistem
Antes de morrer
Por querer mais do que a vida
Sou a sombra do que eu sou
E ao fim não toquei em nada
Do que em mim tocou
Eu vi
Mas não agarrei
Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver pra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro pra sentir
E dar sentido à viagem
Pra sentir que eu sou capaz
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz
partilha bloguística II
Também adoro este blog:
I wish that we were magic so we wouldn't be so young and tragic
partilha bloguística I
(adoro este blog!)
Dias de uma princesa
quinta-feira, maio 20, 2010
O ancião mais doce
quarta-feira, maio 19, 2010
Como dizia, acordei cedo e bem. Convencida, claramente convencida que afastar-me de ti era a melhor decisão que já havia tomado, que era a coisa mais obviamente certa para mim e que ainda bem que estavas fora da minha vida. Argumentos racionais simples e sólidos. Sorriso e satisfação enquanto fazia uma corridinha.
Depois vacilei ao meio dia. E queria contactar-te. Fui ao email, blog e outro meios afins tentar ter notícias tuas. Controlei-me. Ridículo este estado de ciber-stalking.
Mandei uma mensagem a um amigo exorcizando que me apetecia ligar-te.
Depois veio outra onda de claridade. Ná. "Por este gajo, Maria Helena? Por favor. Não me enerves."
E novamente ao fim da tarde uma vontade inacreditável uma enorme tentação de te dizer um olá.
Controlo-me como fazem os alcoólicos em recuperação e penso, "hoje não, amanhã. Por hoje vou resistir." E resisto. E em cada momento que resisto, fico mais convencida que esta é a melhor solução. que claramente é a melhor coisa a fazer. Que tu não me queres, que não me dás valor, que me tomas por garantida e que claramente não é este tipo de relação que eu quero para mim.
Depois jogo à culpa.
E digo para mim que a culpa é minha. Se ao menos...
E este jogo é mau, porque eu ganho e perco sempre. Se ao menos naquele dia eu tovesse feito X, se ao menos eu fosse mais interessante, se ao menos, se ao menos, se ao menos.
E depois volta a racionalidade e o meu espírito crítico de quem vê a situação como um todo. E até sei a melhor estratégia para lidar com isto. Vou dizendo a mim mesma as coisas que digo às minhas amigas, a quem sou expert em dar apoio moral nestas situações.
E vou oscilando nestas certezas absolutas opostas ao longo do dia.
Admito que tenho medo de ser uma pessoa bem sucedida e sensaborona. E pergunto-me se mais vale ser feliz e insossa ou ser deprimida e interessante.
segunda-feira, maio 17, 2010
domingo, maio 16, 2010
J.
Meti conversa em vão, até olhar para a sua boquinha entreaberta com a chupeta apenas a marcar presença na ponta. Estava cheia de feridas. Todo o lábio interior era uma crosta.
Calei-me e entreguei-lhe o braço. Começou a fazer-me festinhas e eu quis retribuir, o que a fez zangar silenciosamente.
Percebi o contrato.
Cheguei mais perto da sua cama. Pousei o braço todo que ela agarrou como se lhe pertencesse e começou a afagá-lo devagarinho, como se embalasse os seus próprios dedos.
Ficamos assim quase uma hora. Em silêncio, a ouvir as aventuras do Ruca, de braços enlaçados. Ela dormiu e até roncou. E quando eu me ajeitava na cadeira fazia-me mais festinhas, docemente, pedindo-me sem palavras que permanecesse imóvel e fosse dela até a sua mãe voltar.
Olhei por ela naquela hora e nesse tempo a vida fez sentido. Nada do que eu sou, do que eu faço, do que eu alcanço importa àquela menina de 3 anos. Apenas a minha presença, o meu braço ao seu dispor era necessário para eu fazer sentido naquele momento.
E fiz.
sábado, maio 15, 2010
2 anos
Demorei um ano a ganhar coragem para voltar ao cemitério depois de ela morrer. Nesse dia estava fechado.
Levei mais nove meses para aceitar um pretexto e voltar à sua tumba.
Estava sol e eu levava um grande ramo de margaridas.
Nove meses antes, das grades do cemitério, chorei baba e ranho, ao ponto de ter uma vaga ideia de que nesse dia chovia muito, mas não ter muita certeza.
No dia que fiquei de fora do cemitério, chorei pela falta que ela me faz, chorei pela ausência do seu abraço, chorei por já não lhe poder simplesmente ligar e contar-lhe todos os disparates que sempre a faziam sorrir, por não a ter na cozinha de casa dela, a fazer café para nós enquanto conversávamos sobre tudo: a vida, a morte, as cusquices insignificantes, os segredos de família, livros, projectos, filosofias de vida.
Lembro-me de chorar e de dizer a mim mesma que o luto é um sentimento egoísta. Mas de chorar à mesma porque egoisticamente lamento muito já não a ter fisicamente presente na minha vida.
O dia de ramos, nove meses depois, foi caótico. Comprei um grande ramo num shopping e fui a correr para Barcelos, preocupada com o chegar antes de fechar o cemitério.
Não pensei muito sobre o assunto. Entrei e dirigi-me apressadamente para a sua campa. Sabia que tinha 20 minutos antes de se fechar o recinto.
Quando dei por mim, estava ali de novo. Quase dois anos depois.
E de repente fez-se silêncio na minha mente afogueada com a pressa de tudo fazer para chegar a tempo e cumprir com mil outras tarefas ao mesmo tempo.
Pousei as flores e cumprimentei-a. Sentei-me no banco mais próximo e fiquei a olhar silenciosamente para o seu jazigo com uma grande jarra de flores frescas e um ramo de margaridas recém depositadas.
Na minha mente tivemos uma pequena conversa sem palavras. Sorri-lhe e ambas percebemos que quem éramos não tinha mudado, independente da nossa presença ou ausência física. Ambas permanecíamos no sítio onde sempre estivéramos, a conversar sobre tudo ao balcão da sua cozinha. Que ela é tão parte de mim que às vezes só estranho já não poder ouvir a sua voz a dizer as coisas que sempre adivinhava que iria dizer – e que portanto pouco mudou com a sua partida.
Hoje faz dois anos que ela morreu e, como não podia deixar de ser, lá fui em romaria para a missa alusiva. E voltei a entrar no cemitério, desta vez mais tranquila, menos stressada.
A campa estava cheia de flores e vasos, de família e sobretudo amigos que dois anos depois assinalam a sua morte com pesar e que lhe sentem a falta como eu e a demais família. Cumprimentei-a de novo e sorri-lhe cumplicemente, como quem comenta “assim sim! Olha lá quantas flores!” enquanto o resto da família chorava. Pensei para comigo “o luto é um sentimento egoísta. Temos de deixar partir as pessoas que amamos”.
E fui visitar uma outra campa.
Quando saía do cemitério, passei novamente pela campa dela, que fica em caminho e – não sei porque razão – afaguei brevemente a pedra como que a despedir-me.
Não sei explicar.
Ia a falar de banalidades com a minha irmã e afaguei brevemente a pedra como fazia quando passava por ela, num cumprimento silencioso, tipicamente nosso, um quase banal “xau aí, madrinha”. E não era ela. Ela não estava lá. Ela já não é. Já não está entre nós, por muito que o que de si existiu ainda permaneça. A Cremilde já não é. Não está nem estará cá.
E por breves instantes perdi a compostura. As presenças são sensoriais: visuais, auditivas, olfactivas, tácteis, gustativas. E as saudades são exacerbadas por estes pequenos detalhes: uma mulher de costas com o penteado dela, a música que ela cantava, o perfume dela, a lã do casaco sobre as suas costas, o café aguado e fraco da sua chocolateira.
Repeti para mim que o luto é um sentimento egoísta e que queria deixa-la partir levemente, libertá-la, que as suas dádivas nesta vida já tinha sido maiores que a sua conta.
E que a amava o suficiente para não ser egoísta.
Mas confesso que às vezes ainda choro.
sexta-feira, maio 14, 2010
H ele na
O ambiente era apenas medianamente iluminado, a estética boémia, as cadeiras desconfortáveis e não combinavam. Ele tinha uma aura de escritor parisiense do princípio do século XX, acossado pelos seus próprios demónios pessoais, de maus hábitos incorrigíveis, cheio de ilusões e ao mesmo tempo, paradoxalmente, descrente da humanidade e do mundo.
"Lose your rhythm, lose your lines, lose your sense of passing time", continuava Madeleine, enquanto ele ia buscar os cigarros.
Ela não tinha perdido a fé na Humanidade. Ela era o seu oposto. Tinha bons hábitos, projectos por sonhos, planos por desejos secretos. Estável e permanentemente feliz. Mas não nestas semanas em que os demónios dele tinham invadido um pouco a sua vida tornando-a um carrossel de sentimentos de euforia e depressão, quase paralisante.
"But if you lose me in your mind I must be saved", tinha apreciado a volta no carrossel e estava grata, embora ligeiramente enjoada.
Sabia-se e sentia-se, finalmente, viva. E um pouco tonta.
"Then lose yourself instead till you remember to forget."
Tinha feito um esforço consciente por não o analisar demasiado enquanto o encantamento durou, mas agora que fora quebrado, via-o tal como ele era. E não conseguia deixar de sorrir.
"Lose your senses, lose your mind, lose your faith in human kind," reconhecia nele os bocadinhos de si que tanto amava e reconheceu o universo paralelo de si mesma que ele representava.
"Lose the chance to find another who'd behave, " reconhecia as coisas que nunca tinha tido coragem para fazer na sua vida, e percebeu que não "tinha de" tantas coisas como achava. Percebeu que a vida podia ser diferente. Percebeu que ela mesma poderia ser diferente, sem assim se perder de si própria ou dos outros.
"Lose the vows we never spoke, lose the punch-line to the joke, " compreendia-o agora melhor do que ele próprio poderia supor. Melhor do que ela imaginava que fosse possível, porque finalmente percebeu que ele era ela mesma noutro momento, noutro contexto, noutra vida.
E que ambos nunca haviam estado destinados a encontrar-se ou a fundir-se, porque isso de alguma forma ia contra as leis da natureza.
"Lose your innocence as if willingly you gave-" Guardou-o com carinho na sua essência e deu-lhe um abraço com a alma toda.
Ele não compreendia, tinha demasiado medo para abrir os olhos ou sequer tirar as mãos da barra em frente do seu assento no carrossel que não podia abandonar. Ficara tanto por dizer, nos pressupostos que ele supunha. E ela mesma não sabia se devia dizer-lhe tudo o que queria, porque - afinal de contas - não se devem estragar os filmes alheios.
"Lose the kettle on the pot, you can lose the best you've got
But if you lose me in your heart. I must be saved"
Não lamentava nada do que vivera e finalmente confirmara a sua suspeita de que se não se importasse de fazer más figuras e de deixar transparecer o que era e sentia, se se deixasse invadir pelo que sentia, embora sofresse pelo caminho, não restaria nada de que se arrepender.
Sentir-se-ia em paz, não chorando porque acabou, mas sorrindo porque aconteceu.
E sorria.
quarta-feira, maio 12, 2010
terça-feira, maio 11, 2010
Summertime
Depois de beber uns copos apetecia-me sempre cantar, mas mesmo bebeda era demasiado tímida para isso.
No último enterro da gata da Pipa, confessei que me apetecia cantar. Estancou, olhou-me muito séria, tirou o casaco e começou o pregão:
"Olhá bela da moedinha pela bela da cançãozinha!"
Quando pararam as primeiras pessoas cantei o Summertime. Ganhamos uns trocos e eu ganhei alento. Passada meia hora tinhamos 15€ e fomos tomar o pequeno almoço, à conta da música.
Desde essa altura, Summertime é, para mim, a música do fim do Enterro da Gata. Anos mais tarde, aprendi a "Amélia dos Olhos Doces" para lhe dedicar e, para mim, a música terá sempre a marca da Pipa.
Recuerdos de Valencia
"As tardes em "La Nau" eram sempre muito agradáveis.
Para começar, o espaço era calmo, acolhedor e vivo. A esplanada do café era num pequeno átrio do edifício, face à loja da Universidade. Ali a luminosidade era perfeita, sem luz solar directa e havia sempre uma levíssima brisa amena. A própria "cafeteria" era excelente quer pela simpatia dos empregados, pela qualidade do café e mesmo pela variedade da oferta, coisas raras em Espanha.
Mas o que fazia o local valer realmente a pena eram os seus visitantes.
Velhas amigas que se juntavam para a tertúlia ocasional, "cotillando", partilhando histórias; os estudantes que liam manuais pesados ou que pelo menos os mantinham abertos enquanto conversavam entre cigarros; o rapaz que lia o jornal ininterruptamente; as raparigas que mostravam umas às outras as mensagens que tinham recebido no telemóvel.
No entanto, sem sombra de dúvida, o grupo mais interessante era sempre o das velhas senhoras.
Chegavam aos poucos, eram de classe alta ou média alta e o próprio grupo exalava um perfume doce e caro.
Poucas fumavam e todas combinavam a roupa com cuidado.
Às primeiras quatro juntavam-se outras duas, depois uma e outra e mais outra, como quem vai acrescentando cubos a uma construção.
A conversa era tão animada que as saudações [saúdos, no original... Uma pessoa acultura-se mesmo aos sítios onde vive eheh] às que chegavam eram subtis e pouco vocalizadas para não abrandar o ritmo das últimas e animadas cusquices.
Lembro-me de as observar de forma mais ou menos discreta: era quase irresistível.
Quem seriam? Como se teriam conhecido?
Embora tivessem um estilo de vestir muito parecido, deixavam transparecer um pouco da sua personalidade.
O meu olhar era invariavelmente atraído para a senhora simpática que se vestia com um estampado floral oriental, de cabelo simples e sorriso constante. Não falava muito mas era frequentemente uma interlocutora de eleição. Imaginava-a mãe de família e avó predilecta a quem o marido traía com uma mulher mais nova e fogosa, repousando depois nos seus braços e cuidados extremosos. Sabe-lo-ia, ela? É possível que sim, mas nunca o deixasse transparecer.
A loura platinada de baton rosa e vestido "verde-el-corte-inglés" fazia contraponto com a amiga de cabelo armado com uma generosa quantidade de laca que se sentava do outro lado da mesa, cujos comentários mordazes e gargalhadas se ouviam em toda a parte.
A senhora de madeixas muito louras e cabelo bem curto com acentuado gosto pelos doutrados usava uma bengala.
Conversavam sobre casamentos, contas, gente que está a ficar surda e louca. Dos outros sem noção e das boas respostas à ofensas.
Todas tinham aspecto de quem voltava do cabeleireiro. Bebiam horchatas e água. E reuniam-se infalivelmente todas as semanas.
Que interessantes eram com o seu ócio e a sua boa disposição!
O volume das suas conversas crescia consoante o entusiasmo e o número de interlocutoras.
Quando se tornava insustentável estudar com semelhante ruído, colocava os auriculares do MP3 e ficava a ouvir a minha mistura absurda de música.
No entanto, este grupo de oito conseguia sempre distrair-me e a cada novo olhar havia algo novo para ser visto ou para reparar."
Ainda pensando no Shakespeare (to be or not to be)
domingo, maio 09, 2010
Shakespeare: To be, or not to be (comentado)
Acho curioso como esta simples frase é tão conhecida e no entanto a vasta maioria das pessoas que conhece este adágio, não faz a menor ideia do que se segue no poema, de qual é o argumento que Hamlet tenta fazer - o que é pena, porque me parece que o melhor vem a seguir :)
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them?
Quando o sujeito poético diz esta parte está inteligente e elegantemente a ludibriar quem o lê/ ouve. Então o que é mais nobre? Sofrer as torturas da má fortuna ou enfrentar um mar de problemas e, opondo-se, acabar com eles?
Pois é, mas a forma como Hamlet prevê que termine esse "sea of troubles" é:
To die: to sleep; No more;
E o que é isto de morrer?
and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, 'tis a consummation
Devoutly to be wish'd.
A morte é o alívio. Uma consumação, a ser desejada com devoção.
To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Mas aqui está a verdadeira questão! Morrer, dormir. Dormir, sonhar. E que tipo de sonhos poderão advir uma vez que não tenhamos já corpo para podermos deles acordar?
Must give us pause: there's the respect
That makes calamity of so long life;
É isso, defende, que nos agarra à vida e ainda nos faz hesitar sobe se preferimos a calamidade da vida ou o alívio da morte.
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin?
E aqui com a beleza poética em que Shakespeare realmente é mestre, retoma o argumento: quem suportaria as opressões, as humilhações, as dores de coração e alma, se cada um de nós soubesse que poderia ter a paz, simplesmente por deixar de viver?
who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
É o medo de algo depois da vida que nos faz aguentar aquilo que aguentamos.
The undiscover'd country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
(eu faço sempre uma pausa neste trecho. Adoro a ideia: a morte é um país desconhecido de onde nenhum viajante regressa) E começa aqui uma transição importante: já sabemos que suportamos a vida porque não sabemos o que vem depois e temos medo do que daí possa advir. Mas aqui ele acrescenta: puzzles the will. Este receio, esta ideia, esta consciência detém a nossa vontade.
Thus conscience does make cowards of us all;
Então essa consciência faz de todos nós cobardes. O que em si mesmo é um argumento brilhante, porque sabemos que Hamlet contempla o suicídio o que pode em si mesmo ser considerado um acto de cobardia; no entanto, ele conseguiu com sucesso até este ponto estabelecer o argumento de que temer a morte é que é um acto de cobardia. Então em que ficamos: devoutly to be wished ou to be dreaded? O suicídio é um acto de coragem ou um acto de cobardia?
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
Apesar de este texto ser dedicado às contemplações acerca da morte e do suicídio, para mim estes últimos versos, a partir de "Thus conscience makes cowards of us all", têm outras interpretações que muito têm a ver com a capacidade de iniciativa, e as vantagens daquilo a que comummente se chama o "sangue novo", esta característica de estabelecer projectos e ideias que não contemplam perfeitamente o status quo e que fazem as pessoas mais sábias franzir o sombrolho - mas que por vezes funcionam por isso mesmo. Porque não lhes foi lançado "the pale cast of thought". Decidiu-se fazer e fizeram.
E esta contemplação global acerca da vida e da morte, na verdade e a meu ver, pode ser aplicada a outras decisões na vida de uma pessoa, dependendo da carga emocional e do peso que cada decisão possa ter na vida de cada um, seja a escolha de um curso na Universidade ( escolhi este? e depois de escolher, quando voltar atrás é tão difícil ou impossível... Será que fiz bem?), permanecer ou sair de uma relação, de um emprego de um hábito de longa de data que já não nos deixa felizes mas sem o qual já não sabemos estar: to be, or not to be: that is the question!
sábado, maio 08, 2010
To be or not to be (Shakespeare, Hamlet 3/1)
Whether 'tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, 'tis a consummation
Devoutly to be wish'd. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there's the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there's the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor's wrong, the proud man's contumely,
The pangs of despised love, the law's delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover'd country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.
Janta
Adoro a palavra "janta" :) Uso-a sempre que possível e sobretudo em contextos afectuosos, como seja "uma janta com bons amigos de longa data".
Parece que esta é mesmo a música de hoje.
Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
Caberá ao nosso amor o eterno ou "não dá"
Pode ser cruel a eternidade
Eu ando em frente por sentir vontade
Eu quis te convencer mas chega de insistir
Caberá ao nosso amor o que há de vir
Pode ser a eternidade mas
Caminho em frente pra sentir saudade
Paper clips and crayons in my bed
Everybody thinks that I am sad
I will take a ride in melodies
And bees and birds
Will hear my words
Will be both us and you and them together
'Cause I can forget about myself trying to be everybody else
I feel alright that we can go away
And please, my day
I let you stay with me if you surrender
Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar
(I can forget about myself trying to be everybody else)
Caberá ao nosso amor o eterno ou "não dá"
(I feel alright that we can go away)
Pode ser a eternidade mas
(And please, my day)
Eu ando sempre pra sentir vontade.
(I'll let you stay with me if you surrender)
sexta-feira, maio 07, 2010
quinta-feira, maio 06, 2010
too much energy
Vou começar a fazer meditação a ver se isto se controla...
Teresinha de Jesus
Linda esta versão.
E de novo dou por mim a trautear o meu amigo Chico, que como costumo dizer, é o único homem com quem algum dia casaria.
"Ser finito é navegar sem horizonte, agarrar o que a vida nos dá e tentar fazer disso o melhor" - será também reconhecer o que não é para nós e recusar os pratos de lentilhas que nos vão surgindo?...
terça-feira, maio 04, 2010
segunda-feira, maio 03, 2010
Post honesto
Pergunto-me se as coisas que sei me deviam impedir de agir. Se o saber que algo não vai resultar me devia impedir de apostar todas as fichas à mesma. Se o conhecer de antemão os porquês de uma coisa não existir me devia roubar a ilusão de que ela pode aparecer.
Porque este evitamento não previne a sensação de vazio que eu sentiria de qualquer das formas. Ou que acho que sentiria, ou que me atormenta porque tenho a puta da mania de fazer raciocínios lógicos com os comportamentos das pessoas, mesmo quando faço um esforço consciente para não tentar adivinhar as suas razões, reduzindo-as a processos que eu compreendo e explico e lhes retira a sua magia. A sua maioridade.
Talvez seja isso que ainda me prende a ti, sabes? Não te compreendo. E apesar de ser muito tentador, faço todos os esforços por não pensar demasiado nas tuas razões, nos teus raciocínios e motivações pondo fé que se um dia tiveres que mas contar, contarás.
Mas essa porra dessa bolha que tens à tua volta que me repele quando te peço que fales e me abraça com muita força quando em silêncio ou nas meias palavras, muito provavelmente nunca deixará acontecer.
Paciência.
“Ser finito é navegar sem horizonte, agarrar o que nos aparece e tentar fazer o melhor disso” dizia o noivo no Sábado.
Whatever. Give me your best shot. Acho que finalmente estou pronta para bater com a cara no chão (mas não com muita força, por favor, sim?)*
*parece que consigo ouvir o Aurélio dizer-me, “foda-se Helena, já viste que até para arriscares bater com a cara tens de ser racional, pá?!” Sim, já vi, Lu.


